Arroz de Frutos do Mar: Bacalhoeiro

A descoberta desta semana em nossa aventura gastronômica portuguesa por São Paulo deu-se em um ponto ainda pouco reconhecido por seus requintes gastronômicos: a zona leste. Foi com grata surpresa que conhecemos o restaurante Bacalhoeiro, jovem casa com decoração requintada e ambiente familiar no bairro do Tatuapé, cujo entorno se destaca como um dos mais elegantes dessa porção da cidade.

Fomos recebidos pelo proprietário, o Sr. Anselmo Tenreiro das Neves, paulistano com bom sangue português nas veias. Anselmo é filho de Dna. Maria Fernanda (natural da Guarda) e do senhor Manuel (de Pombal), que dedicaram a vida de imigrantes a negócios de padarias e de restauração em São Paulo. Para completar, seu sócio Sérgio Ferreira Alves também é filho de portugueses.

Com ambiente amplo, para mais de 100 comensais, o Bacalhoeiro oferece menu de pratos típicos bastante completo. Além do imprescindível bacalhau, nas suas mais diversas escolhas, o restaurante também é farto em frutos do mar e outros pescados como polvos, mexilhões, lulas e os deliciosos camarões-pistola.

A casa também se destaca pelas carnes – cujas especialidades portuguesas são, infelizmente, ainda pouco conhecidas no Brasil. Por essa mesma razão, não falta procura no Bacalhoeiro por iguarias como o arroz de pato ou de cordeiro de Trás-os-Montes; o leitão à Bairrada; e a perna de cordeiro com feijão branco.

Anselmo nos conta que o restaurante, aberto em 2009, realizou seu antigo sonho de resgatar a culinária e as tradições da família. Por isso faz questão de oferecer noites de fado e ainda vender azeites, queijos e embutidos variados.

Seu maior desafio hoje é atrair a freguesia residente no entorno do restaurante, onde a presença de casas de gastronomia mais refinada não foi ainda disseminada. “A maior parte da clientela vem de outras partes da cidade, que costuma ir a bons restaurantes com frequência e nos descobre por referência de amigos”, diz.

Pois se a vizinhança ainda não o descobriu como deveria, está a perder um tempo precioso. Como boas-vindas, Anselmo nos serviu Lulas ao Tejo de entrada: um prato básico e saboroso. Levemente passadas na farinha de trigo, as lulas são lançadas ao óleo em altíssima temperatura, para que adquiram crocância externa mas sem deixar que a carne perca sua maciez por dentro. Acompanha a entrada o molho tártaro, feito basicamente de maionese fresca, legumes e ervas bem picadas.

Antes mesmo do prato principal, desfrutamos do acompanhamento de um vinho branco seco, reserva 2010, do Alentejo. Servido bem frio, o vinho se caracterizou pelo tom refrescante e aroma levemente pronunciado. Feita com uma seleção de uvas Antão Vaz, Arinto e Roupeiro, a bebida de destacava pela graduação elevada, de 14 graus, mas muito equilibrada, criando uma boa combinação com a refeição que se seguiria.

Eis que nos chega um dos pratos mais solicitados da casa, o Arroz de Frutos do Mar, que guarda elementos dos sabores portugueses com os ingredientes tradicionais oferecidos pelo litoral brasileiro.

A composição se destaca pela suavidade, no qual se pode perceber com distinção o sabor de cada ingrediente, sem o peso dos temperos muito pronunciados.

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A receita não esconde muitos mistérios. Tendo como base uma calda de peixe, os frutos do mar são postos a cozer: lulas, polvos, camarões-pistola muito rosados, além uma porção de peixe cavaquinha, que dá mais consistência à combinação. Levado ao fogo brando sem pressa, o prato é depois acrescido de um leve molho de tomates frescos, recebendo em seguida o arroz – neste caso, uma variedade especial trazida pelo restaurante de produtores do Sul do Brasil.

Sem carregar no sal ou especiarias, o prato ganha um sabor marcante com o coentro, que, como lembrado em um dos primeiros posts de nossa temporada paulistana neste blog, enfrenta alguma resistência junto ao paladar do típico paulistano, que o considera muito intenso. Nesse caso, porém, o coentro é disposto com delicadeza, dando um toque especial. “O segredo é usá-lo com parcimônia, para que o prato não fique muito carregado”, conta Anselmo.

O Arroz de Frutos do Mar se mostra uma opção de refeição leve e bastante aromática, que pode ganhar ainda mais intensidade com um banho suave de azeite alentejano. Para finalizar a experiência, degustamos um magnífico rocambole de laranja, de massa muito tenra, feita à moda típica portuguesa, para quebrar o gosto dos pescados na boca.

Da entrada à sobremesa, o conjunto da obra nos pareceu um excelente começo para desbravar o extenso cardápio do Bacalhoeiro – um lugar que, a julgar pelo bom ambiente e as variedades à mesa, merece ser visitado muitas vezes ainda.

BACALHOEIRO
Rua Azevedo Soares, 1580 – Bairro do Tatuapá – São Paulo
+ 5511 2293-1010
www.bacalhoeiro.com.br

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